quinta-feira, 29 de julho de 2010

INFLUÊNCIA DA FENOMENOLOGIA NO SERVIÇO SOCIAL - Parte II

É necessário salientar que, além dessa capacidade de refletir, o homem também possui capacidade de reter o que aprendeu, usar este conhecimento posteriormente e não deixá-lo “parado”, imutável, e sim sempre acrescentar algo de novo que o ajudará no continuo processo de aprendizagem e crescimento.
A pessoa-assistente social deve estar disposta a “trazer à tona” o significado da experiência vivida com a pessoa-cliente, buscando a essência daquilo que ela, a pessoa-assistente social, viveu, para poder esboçar um projeto futuro, não encarando a pessoa-cliente como pronta, acabada e marcada pelo seu passado, e sim a deixando livre para decidir entre as suas possibilidades.
Apesar de estar em contato com o subjetivo da pessoa-cliente, a pessoa-assistente social deve manter seu rigor cientifico, despojando-se de tudo aquilo que lhe foi incutido como certo e pré-estabelecido, deste modo estando pronta para ajudar a pessoa-cliente a desenvolver todas as suas potencialidades, através do diálogo educativo.
Mas o dialogo concebido por Anna Augusta não é apenas isso. Existe algo mais. Para que se entenda de que diálogo estamos falando, precisamos fazer duas importantes distinções:
v Compreender x Entender: quando alguém compreende um outro, significa dizer que este alguém simplesmente decodificou signos concretos – letras, palavras, estruturas frasais etc. – para o pensamento, tendo conhecimento apenas do que o outro diz, conforme o que ele diz com as palavras. ‘Entender’ é muito mais que ‘compreender’. É compreender e, além disso, sentir o mesmo que o emissor sentiu no momento em que ele falou ou escreveu. É ter atenção, interesse, envolvimento, identidade com que o outro diz.
v Expor x Fazer entender: É a mesma dualidade compreender x entender, só que no sentido inverso. ‘Expor’ é simplesmente o processo de se fazer compreendido. Enquanto que ‘fazer entender’ é quando, ao falar ou escrever, doa-se sentimento, emoção, conseguindo o envolvimento do ouvinte, fazendo-o ‘entender’ e fazendo com que ele aprenda verdadeiramente.
Partindo dessas duas dualidades, podemos também entender o que é comunicação. Comunicação nada mais é do que a troca ‘fazer entender-entender’. Não é troca apenas intelectual, e sim intelectual e emocional. A troca ‘exposição-compreensão’ não é verdadeira comunicação, posto que os homens não são constituídos apenas de intelecto.
Outra dualidade que tem estreita relação com os conceitos anteriores é a dualidade ‘relação x encontro’. Devemos saber que tanto a ‘relação’ quanto o ‘encontro’ são conceitos carregados de afetividade pelo menos na perspectiva fenomenológica aplicada ao Serviço Social. Depois, devemos saber que o ‘encontro’ é englobado pela ‘relação’, ou seja, a ‘relação’ é constituída por vários ‘encontros’. A pessoa-assistente social deve estar consciente de que em cada ‘encontro’ é uma nova oportunidade de entender a pessoa-cliente, assim, constituindo um relacionamento de ajuda.
A ajuda, por sua vez apenas se dá quando se põe em vivencia todos esses aspectos mencionados anteriormente, fazendo com que a pessoa-cliente, através do dialogo, aprenda, transformando-se e, por conseguinte, encontrando e realizando as soluções para os seus problemas.
A ajuda é capacitar a pessoa-cliente, desenvolvendo suas próprias potencialidades. Consciente dessa realidade, a pessoa-assistente social não se pergunta “como ajudar?”, e sim, “como educar?”. A ‘educação’ se dará através do dialogo, cujo interlocutor deve ter a intenção de se colocar no lugar do outro, durante o dialogo. A realização desta intenção implica a renúncia de todas as prenoções, os preconceitos, as pré-compreenções etc., para entrar no mundo da pessoa-cliente, descobrindo todas as singularidades que a fazem diferente de outras pessoas-cliente.
No método dialógico, a relação não se dá entre o sujeito pessoa-assistente social e seu objeto pessoa-cliente, e sim, dá-se entre duas pessoas, dois sujeitos.
Após esses esclarecimentos iniciais, podemos colocar que há quatro condições necessárias para que se dê o conteúdo educativo da relação de ajuda.
A primeira delas é o reconhecimento, por parte dos Assistentes Sociais, de que a pessoa-cliente quer procurar a solução para seus problemas e quer resolvê-los.
A segunda condição é chamada de congruência, e pressupõe uma pessoa-assistente social verdadeira no que diz, no seu apoio, no seu interesse. Essa condição a pressupõe verdadeiramente dialógica, e não pseudo-dialógica. Ela é ela mesma, não podendo, desta forma, ser neutra ou despossuída de experiências pessoais.
Na verdade, não existe neutralidade técnica, tampouco subjetiva. É impossível a separação do eu pessoal do eu profissional. Consciente disso, a pessoa-assistente social deve dar um bom uso a essa realidade: deve adquirir auto-conhecimento, a fim de participar na relação, transformando e se deixando transformar.
A terceira condição para a aprendizagem é a ‘aceitação’ total da pessoa-cliente, do jeito como ela é. Para completar a ‘aceitação’, a quarta condição é a compreensão, que deve se realizar em três tipos:
1. Em seu primeiro tipo, a compreensão é ‘saber sobre a pessoa’, ler sobre ela, ouvi-la, observá-la etc.
2. O segundo tipo de compreensão consiste em entender a pessoa ‘através de nós mesmos’, utilizando a intencionalidade de nossas consciências. “Trata-se de usar a nossa percepção, nossos sentimentos, nosso pensamento para experimentar a significação que o outro vivencia”.[1]
3. O terceiro tipo de compreensão baseia-se na ‘empatia’, que é a captação do “mundo particular do paciente como se fosse seu próprio mundo, mas sem nunca esquecer esse caráter de ‘como se”[2].De posse desse três tipos de compreensão, afirma-se novamente que não existe comunicação sem compreensão, no sentido de entendimento. Dizemos que o conteúdo educativo se deve sobretudo à atitude fenomenológica, que busca as essências de cada homem ou objeto. Em Serviço Social, a Fenomenologia nos mostrou o quão importante e viabilizador é a realidade subjetiva de cada pessoa-cliente, que permite o conhecimento daquele ser, depois sua transformação, possibilitada pela aprendizagem, pelo conteúdo educativo, que por sua vez, deu-se através do método dialógico.
[1] Apud JOVCHELOVITCH, 1989.
[2] Idem.

4 comentários:

  1. MUITO BOM ESTA DEFINIÇÃO,PARABÉNS!!! OBRIGADA PELA COLABORAÇÃO.

    ATT.

    DANUZIA MARTINS

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  2. Parabénssss, me fez entender mais a fenomenologia!

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  3. Muito bom! Gostaria de indicações de literaturas sobre a prática do serviço Social influenciada pela fenomenologia. Agradeço desde já.

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  4. muito bom me ajudou muito ... obrigada

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