quinta-feira, 29 de julho de 2010

INFLUÊNCIA DA FENOMENOLOGIA NO SERVIÇO SOCIAL - Parte I

Em meados do século passado, surgiu em todo o mundo o movimento pela Reconceitualização do Serviço Social, que, no Brasil, foi motivado pela crise do paradigma positivista. Esse método já não atendia às necessidades do Serviço Social, em parte pelas suas lacunas inatas, e em outra parte pelas mudanças políticas, econômicas e sociais ocorridas no Brasil. Fazia-se necessário um método mais adequado à realidade latino-americana, em vez de métodos tradicionais, copiados dos Estados Unidos e Europa.
O movimento de Reconceitualização se realizou através de Seminários Regionais, promovidos pelos próprios Assistentes Sociais, cujo objetivo era a discussão sobre o que era o Serviço Social e que Metodologia a profissão deveria utilizar.
O Documento Sumaré foi produzido no III Seminário de Reconceitualização do Serviço Social, realizado na casa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), na cidade de Sumaré, no estado do Rio de Janeiro, no período de 20 a 24 de Novembro de 1978.
Nesse seminário, 254 assistentes sociais se reuniram e estudaram diferentes propostas do Serviço Social, bem como criticaram o paradigma tradicional (Positivista). Eles estudaram, nesse seminário, a Cientificidade do Serviço Social, o Serviço Social e a Fenomenologia, e, o Serviço Social e a Dialética. Os estudos dessas temáticas se deram por meio de conferências, estudos em grupo e sessões em plenária.
No entanto, foi a questão relativa à cientificidade que motivou Anna Augusta de Almeida a apresentar uma nova proposta, por ela elaborada, que manifesta seu métodos genérico, baseado no processo de ajuda psicossocial, o qual é obtido através do dialogo entre a pessoa-assistente social e a pessoa-cliente (pessoa usuário).
O diálogo como ajuda psicossocial é um processo em que a pessoa-assistente social e a pessoa-cliente efetivam uma experiência, tomando como ponto de partida a situação existencial problematizada (SEP).
No dialogo, o trabalho que caracteriza a pessoa-cliente, que é sujeito de uma experiência, é a investigação de uma verdade, a qual em Fenomenologia chamamos de essência.
A metodologia do dialogo necessita tanto do conhecimento da pessoa-assistente social quanto do conhecimento de que a pessoa-cliente é portadora, posto que um sem o outro inviabiliza a dialetização crítica e necessária do conhecimento.
A pessoa-assistente social, na ajuda psicossocial é o “homem total”, sujeito racional e livre. A proposta de Anna Augusta exige uma metodologia que possibilite um trabalho em maior profundidade com as personalidades (ser-na-natureza) e uma fenomenologia que possibilite trabalhar em nível de entendimento (o serviço-como-pessoa).
A atitude fenomenológica nos faz reconhecer que cada caso é um caso, que a pessoa-cliente é dependente da posição e da situação em que está inserida, seja do ponto de vista da percepção do meio social, intelectual, sócio-cultural, histórico ou religioso. Torna-se necessário então, admitir o fenômeno, o que é dado, sem preconceitos, teorias ou juízos de espécie alguma, observando que, a cada retorno, a pessoa-cliente traz uma nova situação, cheia de significados e, portanto, sendo preciso recomeçar com a pessoa-cliente, ouvi-la, entendê-la, e não tentar enquadrá-la nesta ou naquela teoria.
A Fenomenologia não apresenta uma proposta finalística para os problemas sociais nem para os problemas humanos, mas considera que a solução dos problemas está na pratica, valorizando a intersubjetividade das consciências – que é de onde a pessoa-cliente e a pessoa-assistente social têm projetos e aspirações – e buscando encontrar a essência através da experiência.
O homem é visto, segundo a Fenomenologia, como ser individual, e único capaz de construir-se, considerando que o próprio homem, ou seja, a pessoa-cliente, ao interpretar os problemas por ela vividos, pode encontrar possibilidades, ela própria, para resolver os mesmos.
A Fenomenologia enfatiza a importância do (que foi) vivido, pois tanto a pessoa-cliente quanto a pessoa-assistente social estão inseridos na relação e a influenciam com significados que trazem da vida cotidiana, ou seja, com a interpretação que fazem de si e de seu mundo.
A pessoa-assistente social deve tentar entender a pessoa-cliente, para que, juntos, possam experenciar a descoberta da verdade. Nessa busca pelo entendimento, surge o diálogo, como instrumento de trabalho, estabelecendo a relação em que tanto a pessoa-assistente social quanto a pessoa-cliente estão problematizando algo. Ressaltando que se faz necessário entender qual significado as situações possuem para a pessoa-cliente, rejeitando as idéias prontas e tendo em vista que todo momento em que estamos em contato com o outro indicará possibilidades construídas a dois, através do diálogo e da reflexão.
Assim, a Fenomenologia seria um caminho que nos possibilitaria entender antes de julgar ou explicar; que nos ajudaria a acolher o outro e com ele buscar o crescimento, através do diálogo e da reflexão, meios tais que farão com que a pessoa-assistente social e a pessoa-cliente tragam elementos novos à consciência, que ajudarão a explicar a situação problema.
A pessoa-assistente social que segue a orientação fenomenológica não dirá à pessoa-cliente como é o mundo, mas sim, quererá saber o que essa pessoa-cliente pensa do mundo, pois essa pessoa-assistente social acredita que existe uma diferença de individuo para individuo e, portanto, havendo concepções variadas sobre o mundo, a realidade é um fenômeno subjetivo. A pessoa-assistente social passa a ser, então, uma viabilizadora das condições que leva a pessoa-cliente a perceber que é capaz de conhecer sua realidade, de refletir sobre ela e de transformá-la, pois agora ela é capaz de questionar o que conhece e, por tudo isso, entende a realidade.

3 comentários:

  1. Olá, Alessandra, prazer ler sua postagem e ser (aparentemente) o primeiro a comentá-la. Gostaria de tecer algumas considerações sobre ela.

    1. A abordagem proposta por Anna Augusta de Almeida alega ter raízes na fenomenologia. Seria essa uma alegação correta? De que modo se conciliariam o propósito inerentemente teórico-contemplativo da fenomenologia (ciência de essências, dizia Husserl; puro apreender do fenômeno, dizia Heidegger) com os propósitos prático-interventivos do atendimento de casos em Serviço Social? Além disso, a abordagem que você descreveu recorre constantemente às ideias de pessoa, autonomia, situação etc. Não seriam esses sinais de influência do Personalismo, na linha de Mounier e Marcel? E não haveria também aí uma influência da guinada personalista que o pensamento teológico-católico teve em meados do Séc. XX?

    2. Supondo que se trate, de fato, de uma abordagem fenomenológica, como os conceitos de intencionalidade da consciência, de epoché, de intuição eidética, de atitude natural e atitude fenomenológica etc. se integrariam no contexto prático-social do atendimento? Li com atenção a descrição que você fez do "método" (fenomenólogos em geral recusam esse termo), mas o que ficou claro para mim foi apenas a questão da particularidade do caso concreto, do primado da perspectiva do atendido, da ênfase no caráter interpessoal da relação de serviço etc. Não ficou tão claro como essas noções se conectam com as bases da fenomenologia.

    3. De que modo essa abordagem tenta fugir às críticas mais comuns à fenomenologia (risco de solipsismo, circularidade do procedimento, ingenuidade metodológica, embotamento da capacidade crítica, supervalorização do sujeito e da subjetividade etc.)?

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  2. Eiii gostei muito da tematica, ta me ajudando muito em um trabalho que vou apresentar na faculdade. So queria te perguntar sobre a Anna Augusta, queria saber mais dela e do olhar dela sobre tal temática, pq n achei nada dela na net, nem vida e obra achei!Será que vc tem como me passar mais informações? E outra a fonte dessas informações sao da onde?tem bibliografia?
    meu email é:quequelvr@hotmail.com
    obrigada! RAQUEL!

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  3. Caro David, penso que deveria de aprofundar um pouco mais os seus conhecimentos sobre a fenomenologia de Husserl e sua influencia em outros seus disciplos. Gostava de dar os meus parabens à autora do blog e desejar-lhe força para a sua busca. Sem pretender retirar o mérito de quem optou pela palavra pessoa cliente, sem saber qual melhor a possa substituir, preferia de pessoa sendo quem cuida seu facilitador, na medida em que o potencial já existe na primeira. Sugeria, não sendo eu um especialista em fenomenologia, a leitura de Edith Stein, aluna de Husserl que desenvolveu um importante trabaho sobre a Empatia sua (Tese de Doutoramento). Edith Stein é Santa Teresa Benedita da Cruz, vale a pena ler e ter como referência. Também ela passou pela fenomenologia. Pedagoga e Mística.
    Parabens

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